O inverno muda muita coisa na propriedade rural. A rotina dos animais, o consumo de ração, o manejo das pastagens. Mas tem um ponto que poucos produtores consideram com a atenção que merece: o que o frio faz com a lagoa de dejetos.
No Sul do Brasil, onde as temperaturas no inverno podem cair abaixo de 5°C por períodos prolongados, a lagoa de dejetos se comporta de forma diferente. O substrato fica mais viscoso, a decomposição biológica desacelera, a crosta endurece e o bombeamento se torna mais difícil. Tudo isso ao mesmo tempo em que o volume de dejetos gerado pelo rebanho continua o mesmo ou aumenta, dependendo do sistema de criação.
Neste artigo, explicamos o que muda no comportamento da lagoa no inverno, quais são os riscos desse período e por que a agitação é ainda mais importante nessa época do ano.
O que o frio faz com a lagoa de dejetos
A lagoa de dejetos é um sistema biológico vivo. O que acontece dentro dela depende, em grande parte, da temperatura. E quando o frio chega, esse sistema reage.
O substrato fica mais viscoso
Com a queda de temperatura, a viscosidade dos dejetos aumenta. O material fica mais denso, mais resistente ao movimento o que significa que a lagoa precisa de mais energia para ser homogeneizada. Um agitador que funciona bem no verão pode ter dificuldade para movimentar o mesmo volume no inverno.
A decomposição biológica desacelera
As bactérias responsáveis pela decomposição da matéria orgânica são sensíveis à temperatura. Abaixo de 15°C, a atividade biológica cai significativamente. Isso significa que o substrato se decompõe mais devagar, e o volume de material na lagoa cresce mais rápido do que no verão.
A crosta endurece
No frio, a crosta que se forma na superfície da lagoa endurece mais rapidamente e se torna mais espessa e compacta. Uma crosta endurecida é muito mais difícil de quebrar do que a crosta típica do verão, e exige mais potência do agitador para ser rompida.
O bombeamento fica mais difícil
A combinação de substrato mais viscoso e crosta mais espessa torna o bombeamento mais trabalhoso no inverno. A bomba precisa trabalhar mais para retirar o mesmo volume de material e se a lagoa não estiver bem agitada, o que sai é a camada mais diluída da superfície, com menor valor agronômico.
Os riscos específicos do inverno para a lagoa
O inverno concentra um conjunto de condições que aumentam o risco de problemas na lagoa:
Acúmulo acelerado de volume
Com a decomposição biológica mais lenta, o material orgânico se acumula mais rápido. Se o intervalo entre bombeamentos não for ajustado para essa realidade, a lagoa pode chegar no limite antes do esperado justamente na época em que o bombeamento é mais difícil.
Sedimento mais compactado
O frio favorece a compactação do sedimento no fundo da lagoa. Material que no verão ainda estaria em suspensão parcial, no inverno se deposita e se compacta, reduzindo o volume útil da lagoa e dificultando a homogeneização.
Período de chuvas
Em grande parte do Sul do Brasil, o inverno coincide com períodos de maior precipitação. Chuva aumenta o volume de água que entra na lagoa, especialmente em sistemas sem cobertura acelerando ainda mais o enchimento.
Dificuldade de aplicação no campo
Solo encharcado pelas chuvas de inverno não absorve o biofertilizante adequadamente. Isso limita os períodos de bombeamento e exige planejamento mais cuidadoso para não gerar passivo ambiental.
Por que a agitação é ainda mais importante no inverno
Se no verão a agitação é essencial para manter a lagoa funcionando bem, no inverno ela se torna crítica. E por razões específicas do período.
Para quebrar a crosta endurecida
A crosta de inverno é mais espessa e mais dura. Sem agitação suficiente, ela não é quebrada e continua crescendo, aprisionando gases e reduzindo a área ativa da lagoa. O agitador precisa ter potência e comprimento adequados para romper essa camada e colocar o material em suspensão.
Para manter o substrato homogêneo apesar da maior viscosidade
Substrato mais viscoso resiste mais ao movimento. A agitação precisa ser mais intensa e mais frequente no inverno para garantir o mesmo nível de homogeneização que seria obtido com menos esforço no verão.
Para facilitar o bombeamento nos períodos disponíveis
Como as janelas de bombeamento no inverno são mais limitadas solo encharcado, temperaturas baixas, condições climáticas adversas cada oportunidade de bombear precisa ser bem aproveitada. E o aproveitamento começa com a lagoa bem agitada e o substrato homogêneo.
Para evitar que a lagoa chegue ao limite
Com o volume crescendo mais rápido e as oportunidades de bombeamento mais escassas, a lagoa precisa estar sempre em condições de ser bombeada. Agitação regular é o que garante que, quando o momento for propício, o material esteja pronto para sair.
O que ajustar no manejo durante o inverno
O manejo da lagoa no inverno não precisa ser radicalmente diferente, mas precisa ser mais atento.
Alguns ajustes fazem diferença:
Aumentar a frequência de agitação
No verão, uma agitação semanal pode ser suficiente para manter a lagoa em boas condições. No inverno, a maior viscosidade e a formação mais rápida de crosta exigem agitação mais frequente, ao menos duas vezes por semana em lagoas com maior volume ou substrato mais denso.
O agitador elétrico programável tem uma vantagem clara aqui: pode ser configurado para operar com mais frequência no inverno sem exigir intervenção manual a cada acionamento.
Agitar por mais tempo antes do bombeamento
Com o substrato mais viscoso, o tempo necessário para homogeneizar a lagoa antes do bombeamento aumenta. No verão, 2 horas podem ser suficientes. No inverno, dependendo das condições, pode ser necessário agitar por 4 a 6 horas antes de iniciar o bombeamento para garantir que o material esteja realmente homogêneo.
Monitorar o nível da lagoa com mais atenção
Com o volume crescendo mais rápido, o intervalo entre verificações do nível da lagoa deve ser menor no inverno. Um ponto de alerta bem definido, uma marcação visual ou régua permite ao produtor planejar o bombeamento com antecedência, sem depender de urgência.
Aproveitar as janelas de clima favorável
No inverno, os dias de clima mais ameno e solo com boa capacidade de absorção são mais raros. Quando aparecem, precisam ser aproveitados. A lagoa bem agitada e o substrato homogêneo garantem que o bombeamento possa ser feito com eficiência quando a janela aparecer.
Verificar a manutenção do agitador antes do inverno
O inverno é a época em que o agitador vai trabalhar mais com substrato mais resistente e por períodos mais longos. Uma inspeção preventiva antes da chegada do frio, vedações, mancais, hélice, motor, evita paradas no pior momento.
Inverno bem gerido é lagoa sob controle
O inverno não precisa ser sinônimo de problema para a lagoa de dejetos. Com atenção às mudanças no comportamento do substrato e ajustes simples na rotina de manejo, especialmente na frequência e duração da agitação é possível manter a lagoa funcionando bem mesmo nas condições mais adversas.
O produtor que entende o que o frio faz com a lagoa age antes do problema aparecer. E o agitador certo, funcionando na frequência certa, é o que torna isso possível.
Lagoa bem agitada no inverno é lagoa que não cobra caro na hora errada.
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